A TI E A MIM MEU AMOR

De todas as histórias há uma que se rende mais, sobre os passeios da madrugada, sobre os amores não findados. E há quem as saiba ouvir em doces amanheceres invernosos onde nem a chuva ou a neve deixam abafar qualquer sombra de desejo ardente. Há as histórias perdidas nos mares altos em grandes naufrágios, em ilhas desertas... mas nem essas fazem partir os desejos, o doce encontro das melodias, das palavras que não se dizem. Nem mesmo o tempo se deixa coexistir do momento pois a hora chegou de mansinho para se apresentar, para nascer, para começar o novo dia que tardou a chegar. Pois há histórias que para sempre ficarão guardadas dentro dos mais escondidos cantos do mundo, histórias que foram feitas para contar. Pois o amor não se deixa morrer ou adoecer, deixa-se ficar para todo o sempre. E por isso sigo em frente já sem dor. Sigo em frente porque te amo demais para deixar apagar aquilo que foi. A ti e a mim meu amor.

AS ESTRELAS OLHAM PARA NÒS

(Este não é o tipo de texto que geralmente coloco aqui. Seria mais adequado ao meu outro blog. Contudo, sei que por aqui chego a mais pessoas.)

Há muito que discuto a minha visão sobre os direitos à liberdade de expressão. No caso concreto à liberdade de ser-se gay. Já sei o que muitos vão dizer... afinal é mesmo isso que está em discussão: Onde está o limite entre a nossa privacidade e a luta por uma causa?

Muitos dizem que a luta já não faz sentido, que os tempos estão a mudar... e eu vejo essas mudanças, mas também tenho vindo a assistir a um retrocesso. Estaremos a dormir para não vermos isso? Que a habituação a uma condição “aceitável” nos está a levar de novo para trás?

A liberdade está em constante mudança, anda para a frente e é ao seu lado que devemos caminhar. Não é fácil, pois não, é muito difícil por vezes... mas se temos força para o fazer o que ainda fazemos parados? Acho que a fase de sermos respeitados já devia ter passado. Devíamos sim estar na fase da normalidade, da não confrontação, de pura e simplesmente podermos ser porque sim, porque o somos.

Talvez o meu passado me tenha trazido nesta direcção. Talvez o ter ouvido “Tu não és meu filho” tenha deixado uma marca profunda. Hoje sei que não só sou respeitado pelo meu pai como compreendido e aceite. E isso é um sentimento que ninguém mais me pode tirar. Privacidade? Eu só queria que todos pudessem sentir isto.

As palavras são muito reduzidas para se poder dizer tudo aquilo que se quer. Mas ainda fico triste quando ouço alguém dizer: “Os meus pais sabem e aceitam, mas eu nem quero que eles me perguntem por namorados que fico constrangido.” Constrangido com o quê, pergunto eu? Tudo começa em nós. Em mim e em ti. Não podemos alterar o mundo se não nos alterarmos primeiro a nós.

É difícil, é complicado, mas temos de começar por algum lado. Afinal as coisas não estão tão diferentes como antigamente. Recomendo vivamente o visionamento do filme “Milk”. Eu sei que as pessoas não mudam por ver um filme e muitos apesar de emocionados com a história vão continuar a defender-se de si mesmos. Nem eu sei se estou certo...

AS ESTRELAS OLHAM PARA NÓS
Através do escuro
Através da noite
Através do medo
Através da luta
Através das tempestades
Através das lágrimas

Apesar dos pés estarem cansados
Apesar da alma estar desgasta
Apesar de nos tentarem mandar abaixo
Apesar de por vezes nos sentirmos sozinhos

Temos de nos unir e lutar juntos
No escuro, no meio da trovoada
Lado a lado, ombro a ombro
Para nos confortarmos uns aos outros

E as estrelas olham para a nossa luta
E as estrelas indicam-nos o caminho
E as estrelas olham para nós
E estamos unidos para viver mais um dia

Quando as estrelas olharem e souberem da nossa história
Quando as estrelas olharem o nosso passado
Dir-nos-ão que teremos um futuro
Quando formos um só debaixo do sol

E apesar de nas nossas mãos ter corrido sangue
E apesar de estarmos cansados
E apesar dos nossos corações estarem a ponto de quebrar
Nunca podemos renunciar a confiança
E lutaremos através da dor
Mas nunca deixaremos de ter esperança
De uma vida honesta e orgulhosa
E é por isso que estaremos juntos
Através das geadas, do granizo e da neve
As estrelas são a nossa redenção

As estrelas olham para nós quando somos abandonados
As estrelas olham para nós no breu da noite
As estrelas olham para nós e iluminam-nos o caminho

Saímos à rua juntos
Saímos como um só
Saímos pela vitória
Saímos até conseguirmos

Eleva-me e segura-me gentilmente
Levanta-me e segura-me bem alto
Através das noites escuras
Vai chegar o dia em que voaremos
E apesar de termos sido rejeitados
E apesar de termos sido postos de lado
Vamos encontrar um novo amanhã
Onde poderemos finalmente descansar
E aí vamos levantar-nos com orgulho
E nunca mais estaremos sós
E poderemos regressar
Para as nossas casas

As estrelas olham para nós e vêem o seu reflexo
As estrelas olham para nós e vêem luz
As estrelas olharão para nós e verão justiça
E o que está certo

As estelas olham para nós e vêem a luta
As estrelas olham para nós e vêem a dor
Mas as estrelas vão guiar-nos para onde a luz brilha outra vez
Quando formos um só debaixo do sol
Um só debaixo do sol
Todos juntos

Quando formos um só todos juntos
Quando formos um só a lutar pela vitória
Quando formos um só até ao fim

UNS DIZEM...

Uns dizem que é com o tempo, os outros não sabem bem o que dizer. É sempre a saudade que nos mantém presos. De cama em cama um desejo que não tenho. A busca de um prazer que ficou longe, perdido no tempo, congelado na memória. Mas são as linhas das mãos que contam a história.

Uns dizem que é com a vida, os outros não sabem bem o que dizer. A vida ensina-nos muito, mas temos de querer aprender. Amanhã já não contamos com ela. Foi-se. E o que restou para quem ficou restará para quem ficará. Mas as memórias são fracas diz Lewis. E a dor... ai a dor, que se espelha nos reflexos da cidade... não ficará para contar o que não viveu.

Uns dizem que é com a vontade, os outros não sabem bem o que dizer. Na hora h entra-se em histeria. Quando é a altura certa já esta deixou de ser. O desejo corroi-se por dentro com a negação do afecto. A negação de quem somos. A negação do que queremos. É a vontade de correr com os pés presos.

Uns dizem que não é com nada, os outros não sabem o que dizer. Esperam sentado por uma vontade de viver o tempo...

BARCELONA by GUILLO & LOS TELLARINI

Porque tanto perderse tanto buscarse sin encontrarse
me encierran los muros de todas partes
Barcelona te esta's equivocando no puedes seguir ignorando
que el mundo sea otra cosa y volar como mariposa.
Barcelona hace un calor que me deja
fri'a por dentro con este vicio de vivir mintiendo
que bonito seria tu mar si supiera yo nadar.
Barcelona y mientras esta' llena de cara de gente extranjera,
Conocida, desconocida y vuelta a ser transparente.
No insisto ma's Barcelona
si no es cosa de tus ritos tu laberinto extrovertido.
No he encontrado la razon porque me duele el corazon
porque es tan fuerte que solo podre' vivirte en la distancia
y escribirte una cancion.
Te quiero Barcelona

DESPERTAR

Os anos passam e continuo a fazer contas à vida, é mais um dia... é mais um! É só mais um. Atendo o telefone simplesmente porque ele toca, em tempos tocava menos, mas também sabia melhor quando tocava. Não gosto de mensagens, gosto de falar, de me expressar. Sou demasiado expressivo para pequenos textos rápidos. És tu outra vez... não, não te quero ouvir mais uma vez. Estou cansado de dar conselhos, cansado de ser um ombro amigo. O meu corpo já não reage... cada vez menos. Boneco insuflável. Toca a campainha... ah és tu! Também não te quero ver. Deixei a louça toda em cima do balcão e alguns cabides desarrumados. O que é feito daquela roupa? Deve ter ficado esquecida algures. Não quero pensar nisso. Acerto os relógios da casa, cada um tem a sua hora... vicio de quem tem o vício de não se atrasar. Quanto mais perto da porta mais o relógio está adiantado. Estou atrasado! Não... na verdade não estou. É tudo estratégia. Tomo um comprimido, estou a sentir-me febril e isso não é bom. Bom era ter mais tempo para ler. Acordo com dores no corpo... estou terrivelmente atrasado. Deixei-me dormir em pensamentos. Desligo o telefone e fecho a porta. Lá fora pode ser o mundo, mas aqui sou só eu.

O ÚLTIMO DIA

Preparo a casa para a grande noite. Como se esta não fosse apenas mais uma noite. Devia começar a celebrar as passagens dos meses, das semanas ou mesmo dos dias. Mas é agora ou nunca, a contagem já começou... e que ano. Como conseguem caber tantas coisas num espaço tão pequeno? Afinal o que é um ano numa vida, o que é uma vida no meio de tantas outras, o que somos todos nós no meio do universo? Uma migalha! Mas uma migalha que nos dá tantas dores de cabeça.

Deixei de acreditar em Deus mas ainda ontem à noite lhe pedi que curasse a minha gata. Não sei porque o fiz, as palavras saíram-me da boca, como uma necessidade compulsiva de que exista algo maior que nos dê uma mãozinha quando precisamos. Não, não voltei a acreditar em Deus. Quero sim acreditar nas pessoas. E espero que quem tenha receitado os comprimidos tenha feito a escolha certa.

Antigamente agradecia-se a Deus à hora do jantar por mais um dia que tinha passado, por podermos ter mais uma refeição à mesa e por continuarmos todos juntos. O acto em si era bonito, mas havia qualquer coisa de errado nas palavras. Desvalorizava-se o esforço de todos nós para que viver fosse possível. A partir de hoje vou agradecer todos os dias às pessoas que me rodeiam, por sorrirem para mim, por chorarem no meu ombro, por eu chorar no deles, por se preocuparem comigo, pelo amor que me dão, por se esforçarem todos os dias por serem melhores pessoas, por darem tudo para que viver seja um momento feliz.

A todos os que me acompanharam na jornada que foi este ano um muito obrigado. Todos juntos fazemos a diferença. Todos juntos somos melhores, somos especiais, somos uns dos outros.

P.S.: Desculpa lá Deus qualquer coisinha! Mas ficas convidado a juntar-te a nós. Onde comem dez come mais um. Ah... e não te esqueças da gata!

ADEUS, ATÉ AMANHÃ

Vou-me embora, disseste tu, querendo saber... não quero mais saber de ti. Mas a verdade é que nunca foste embora, continuas a bater-me à porta de tempos a tempos. Entras e sais deixando vestígios de que aqui estiveste. Esses vestígios encostam-me a ti, encostam-me a uma esperança... eu que nunca quis ver-te partir. Se é para te despires, despe-te e faz amor comigo. De outro modo diz-me adeus de uma vez por todas. Todos sofremos, todos choramos, mas também rimos e queremos ser felizes. Por isso ama-me ou odeia-me.

Liguei à Elisa para me ajudar a empacotar as minhas coisas e fui até à Baixa fechar as contas do banco. Não se trata de arranjar mais um psicólogo, não se trata de mais um compromisso. Não és o único que está ferido e não sei mais que raio hei-de fazer. Acho que nunca viste até onde a minha fenda abriu, nunca soubeste que fiquei sem corda para puxar e eu não te podia salvar... Foi o que sempre quiseste, mas eu não te podia salvar não importa o que tentasse. Tudo o que pude fazer foi amar-te e deixar-te ir. Não importa o que tentasse, tudo o que pude fazer foi amar-te, meu deus, amei-te tanto. Podemos discutir ou podemos esperar ou podemos partir...

PALAVRAS DE CIGARRO FUMADO

“...estarei eternamente à procura de o reconhecer num outro corpo e numa outra cara...”
- Não tenhas pena de mim, estou só cansado – disse-lhe.
“...olho para trás e parece que se passaram bem mais do que 23 anos...”
O cinzeiro brota palavras de um cigarro fumado, estou ausente.
“Como muitos gostam de referir nasci com os pés virados para a lua.”
Tenho o telemóvel cheio de inutilidades e a luz da cozinha treme.
É preciso mudar a lâmpada mas nunca tive jeito para essas coisas.
“Os tempos nem sempre foram os melhores mas soubemos dar a volta a isso.”
Não te aproximes de mim com voracidade, simplesmente aproxima-te.
São sempre as incertezas. É sempre a novidade.
“...a verdade é que a pessoa que eu amo não está comigo para experienciar tudo isto.”
Agora é só o fumo de uma beata mal apagada.

UM ANJO E UM DEMÓNIO NO OMBRO

Toda a minha vida tenho vindo a dizer que sou má pessoa. Que coisa mais ridícula de se dizer! Mas não sou ingénuo ao ponto de afirmar que nunca magoei ninguém. Pois magoei e arrependo-me. Mas nos últimos dois anos tenho vindo a tentar mudar essa imagem que tenho de mim mesmo. E é horrível quando temos tais pensamentos sobre a nossa pessoa. Não me caía muito bem dizer-me má pessoa. Comecei então a tomar mais consciência das minhas atitudes, da forma como tratava as pessoas e de como vivia o meu dia-a-dia. Essa tomada de consciência levou-me a muitas questões, mas a principal de todas... terei eu sido, efectivamente, uma má pessoa?

Sempre fui uma pessoa forte e independente, trabalhadora e com os meus objectivos a alcançar. Para tudo isso nunca passei a perna a ninguém. Sempre me fiz valer pelo que era e nunca pelo que os outros não eram. Nunca sabotei ninguém para ser melhor. Sempre joguei um jogo integro.

No que toca às palavras sempre fui uma pessoa muito transparente. Mas essa transparência nem sempre foi bem aceite e durante uns anos, após várias criticas, tentei ser mais politicamente correcto. Aconteceu que por vezes senti-me a viver pequenas mentiras por não dizer aquilo que me ia na alma. Mas já estava no jogo social e hoje, por vezes, quero dizer o que penso e sinto-me travado pela história do “não precisas de dizer isso que não vai fazer bem à outra pessoa”. E sinto cá dentro uma raiva de mim mesmo. E por tantas coisas que não disse acabei por me tornar a pessoa “boazinha”. Acontece que isso fez com que desse abertura às outras pessoas de serem as “mazinhas”. Mas como sempre fui forte para aguentar muita coisa deixei-me ir e ouvi de tudo nos últimos tempos.

E foi aqui que me pus a pensar... as outras pessoas agora são eu. As outras pessoas, tendo oportunidade, estão a ser exactamente aquilo que eu era. Seremos então no fundo todas más pessoas à espera de uma oportunidade? Ou estaremos todos travados nas línguas de dizermos o que pensamos para não magoar até encontrar alguém forte que aguente a verdade?

Eu considero-me uma pessoa forte que aguenta essas verdades e sendo que agora até me mantenho socialmente correcto sou o alvo ideal para fazerem de mim gato sapato. Mas a verdade é que basta! Porque por mais forte que uma pessoa seja não pode deixar que lhe digam coisas e ficar a pensar: «pronto, esta pessoa precisava de dizer isto para se sentir bem e eu até me aguento». Dar esta abertura aos outros é o fim da parada. E quando dei por mim as coisas estavam a tomar um rumo muito estranho... Basta!

A ARTE DA FALA

Existe um certo mistério no que toca à arte da fala, da comunicação. A forma como nos expressamos para com os outros é, de todo, uma arte a ser explorada, trabalhada e refinada. Afinal, a fala sustem as relações entre as pessoas.

Sabemos o significado das palavras, sabemos juntar palavras e construir frases mas saberemos realmente falar? Falar não é mais do que saber ouvir. Acredito estarmos a entrar numa fase em que as pessoas deixaram de saber comunicar, deixaram de saber cativar. Falar não é mais que dançar, a graciosidade dos gestos que ondulam em combinações harmoniosas, caóticas, lentas e demoradas, rápidas e vibrantes. Falar é tocar notas em contratempo, é o ajuste do corpo à harmonia sincopada. Falar é mais do que debitar palavras, umas a seguir às outras, vómitos de nada, dejectos inúteis.

Coexistir no mundo das palavras não é fácil. Vem-me à cabeça a imagem de mil palavras empoleiradas no meio de pessoas. Os gestos que cada pessoa faz para reunir entre elas um consenso. A dança de corpos e contra corpos em busca de algo, os rituais de acasalamento dos animais, a concisa melodia dos pássaros num embalo matinal. E no final, quando todas as palavras foram usadas aparece a arte do silêncio...

LOVE ME LOVE ME NOT

- Gosto de ti.
- Eu também gosto de ti.
- Então porque é que não gostas de mim?
- Porque não gosto de ti da mesma maneira que tu gostas de mim.

UM POUCO DE TUDO

Nunca sentimos tudo ao mesmo tempo, vamos sentindo
Porque o tudo que sentimos deixa margem de manobra para sentirmos mais um pouco
Se tudo estivesse na balança não sobraria nada
Assim sentir tudo é sentir um pouco de tudo
E um pouco não é tudo
É um pouco

PORQUE É QUE AS PESSOAS FICAM BONITAS QUANDO CHORAM?

Querido professor,

ultimamente tenho observado muito as pessoas, assim como pediu. Eu sei que devíamos ter em atenção a procura da beleza nas características físicas para que chegássemos a um consenso na classe. Contudo, ouve uma característica que me chamou mais a atenção que todas as outras. Não é bem uma característica física, é mais fisiológica. Na verdade, todos sentimos a necessidade de chorar. Podemos não o fazer, mas o sentimento está lá. E todos chorámos uma vez na vida quando saímos do útero da nossa mãe. Logo, é uma característica comum a todos. O que me tem intrigado nestas observações é que as pessoas ficam mais bonitas quando choram. Não digo depois de chorar. Falo no acto em si. Parece-lhe estúpido?


Querido aluno,

não se sinta estúpido por pensar nesse tipo de coisas. O objectivo do trabalho era fazer-vos perceber a subjectividade da beleza. Queria que concluíssem que a beleza tanto pode ser física como emocional. Que não existem padrões. De certa forma libertar-vos para um estado superior do entendimento desta. Que é possível ficarmos atraídos por um pessoa, a qual nada diz ao nosso melhor amigo. Que não devemos ficar restringidos aos gostos uns dos outros. O que mais me deprime é sentir que alguém fica envergonhado por gostar de pessoa A, B ou C. E a sua questão é muito pertinente. Posso mesmo dizer que me deixou a pensar. Quando choramos é porque libertamos energias negativas do nosso corpo, ou mesmo direi, da nossa alma. Tornamo-nos assim pessoas menos carregadas. E é essa leveza que eu acho que o fascina. Estarei correcto?


Querido professor,

não estou certo de que seja a leveza que me fascina. O professor já viu, alguma vez, com atenção, a foto de alguém a chorar? Ou já parou para apreciar alguém que estivesse a chorar sozinho num banco de jardim? Ou mesmo alguém que tenha passado por si a correr lavada em lágrimas? São momentos em que o nosso sentimento de pena, o que eu acho asqueroso, vem ao de cima. E no meio de tanta tristeza é como se o tempo parasse pois algo de belo está a acontecer. O que me fascina, ou perturba, é o acto em si. O verter das lágrimas. A razão que nos leva a chorar. Quando são lágrimas verdadeiras isso torna-nos pessoas bonitas. Choramos porque compreendemos um pouco mais da vida. Quando choramos apresentamos as feições mais gastas da nossa cara e ao mesmo tempo as nossas verdadeiras feições. É como se retirássemos as mascaras que usamos no dia-a-dia. Ficamos nus em frente de toda uma multidão ou mesmo nus perante nós. O nosso corpo fica transparente permitindo espreitar por todo o seu funcionamento. E é isto que é belo. A confiança com que levantamos a cabeça quando limpamos os restos de água salgada que não fugiram do rosto.

Tenho uma confissão a fazer-lhe. Quando o vi chorar no outro dia apaixonei-me por si. Deixou de ter a mascara para passar a ser uma pessoa exposta ao mundo. Passou da rigidez para a beleza. Eu vi a beleza.


Querido aluno,

penso que estamos a ir longe demais nesta troca de e-mails. O seu ponto de vista é bonito demais e de uma pura sensibilidade, mas eu jamais poderei ser amado por um aluno.


Querido professor,

pensei que quisesse demonstrar com este estudo que a beleza vai para além do corpo. Mas apercebo-me agora que não passa de teoria para si. Algo que lhe foi destinado a ensinar, não a apreender. De qualquer modo o professor foi belo enquanto chorou. Devia chorar mais vezes.

A HISTÓRIA DE MATT WEDLER

- Se o teu sangue... fosse o meu sangue ardíamos juntos na mesma fogueira. Brasa quente na minha pele, o teu corpo... junto ao meu corpo. Planícies desertas, sedentes de beijos, noites brancas no escuro. Estrelas que imaginámos... Lugar algum que cumpra as fantasias dos sonhos, das utopias e agora que te perdi... Lançaste as cartas do destino, os dados viciados em jogos nocturnos, o sexo maltratado, usado sem pudor. Na tua voz, a poesia era veneno!

Não é fácil ver o céu ser pintado de preto. O teu corpo sem alma por entre os lençóis. As trevas nascem em meu redor. As cartas que li do teu desespero:

“Enquanto sinto a minha vida a desaparecer um vasto rasto de memórias fazem chorar o meu coração. Saber que aprendi a amar e saber que é possível amar alguém... o que eu não daria para acordar. Acordar desta peste que consome o mundo. Sentir a evaporação dos objectos que me rodeiam. Ser presenteado com a dança da morte e ver-me partir sem resgatar um último beijo teu...

...Se o teu sangue... fosse o meu sangue ardíamos juntos na mesma fogueira. Brasa quente na minha pele. O teu corpo... junto ao meu corpo. É o amor em estado puro.

Nojenta é a imagem do meu corpo quando o olho ao espelho. Carne carcomida pelas impurezas do mundo. Corroída, esfaqueada, consumida. E quando para mim olhares já não serei eu e por momentos a pessoa que amas já não existe... Já não lhe pertence a mão que escreve estas palavras”

Samuel parou de tocar piano.

- Então a quem pertenceram as mãos quando me escreveste a carta? Se já sabias a merda que isto ia dar porque é que te divertiste a ver-nos crescer? Se julgas que serei a tua cobaia, estás muito enganado. Não sou a marioneta de ninguém. Se queres respeito, respeita-nos!
- Samuel precisas de descansar. Vou levar-te a casa.
- Percebes o que quero dizer? É muita dor acumulada num mesmo coração. Nunca tiveste ninguém a morrer ao teu lado e mesmo assim a sorrir para ti e a dar-te força.
- Não, nunca tive. E nem alcanço o teu desespero. Mas tens de ir dormir. Vai fazer-te bem.
- Não queria ter de acordar amanhã. Não para viver nesta mesma vida.

SÓ AMIGOS

Como eu era em 1972 e muito tempo já passou
As cartas queimadas em fogueiras juvenis
São o passado não muito distante
Entre um depois e um antes que nunca chegou a ser nosso
Amigos sem amor
Casámos em sentimentos de criança, casámos e cansámo-nos
De tudo, não de tudo, de um pouco
Do que seria o nosso futuro
Prometido a muitos
Sem nós nem laços de gravata
Subimos a rua que ia em direcção ao café
E o mundo que nos cercava era estranho
Já na altura
Tu com ela e eu com ele
Sem vista a um ponto final
Um stop
Certeiro no meu caminho, infinito no teu
As memórias recordadas num jardim de Inverno
Na noite de chuva e de luz
O correio atulhado de presentes nunca abertos
E o sábio discurso de pais abandonados do amor dos filhos
Partimos no comboio para fugir
Mas não chegámos nem à estação sem que disséssemos adeus
E as voltas que demos
São as voltas de um árduo destino por concretizar
Era certo que um dia chorarias a meus pés
Com lágrimas suficientes para alagar a minha casa
No sofá cama onde te deitaste para assistir ao ridículo jogo que passava na televisão
Sem comida nem bebida apenas o tabaco a encher o espaço vazio entre nós
Entre o teu coração e o meu sofrimento
Fiz-te o café da manhã para que tudo parecesse perfeito
Sem efeitos especiais ou cortes cinematográficos
Mas não ficaste mais uma vez
A porta já estava aberta e tu pronto para sair
E no chão de mosaicos da casa de banho fiquei deitada
Estava fresco e eu tinha calor
E dia após dia voltavas com o mesmo sonho
As mesmas recordações os mesmos desgostos
E ao ouvir por mais uma vez o som da porta
Escorregadia
Esgueirei-me para a sala e surpreendi-te com um jantar que ficou para a história
Belos poemas foram as nossas palavras
E sem a mínima intenção de te ferir espetei-te uma faca no peito
Não uma faca, um desejo realizado
Mas para ti a vida continuava e mais uma vez partiste
E de dia para dia cravava mais fundo a faca
Não só em ti
Em mim também cravei para que fossem visíveis as marcas
Mas éramos só amigos
Dizias tu – Só amigos
Sentei-me na janela a ver a chuva cair
Que coisa mais patética ver a chuva a cair
E que tinha de errado a chuva a cair
Nada
Era apenas chuva e estava a cair
Como eu estava a cair aos bocados
Primeiro a mão direita
Depois a mão esquerda e assim em diante
Os pés, o sexo, a cabeça…
Quando me viste pela última vez era apenas pedaços
Estendidos à tua frente prontos para te receber
E mais uma vez entraste triunfante pela sala
Ligaste a televisão e disseste que precisavas de um tempo
Todo o tempo era para ti
Que podia eu fazer senão olhar para ti
O teu corpo difícil de entender
Os teus olhos ambíguos
E provavelmente já não saía de casa com medo de não estar para te abrir a porta
De não estar para libertarmos poesia pelos poros
E era poesia de dois caminhos afiados
Já não quero saber dele
Dei por fim a uma magia fingida em retalhos de tecido foleiro
Foi o seu corpo que me disse que o fizesse
É sempre o corpo que nos diz o que temos de fazer
Sem sentir um único arrepio disse que já não o queria
Que queria viver sem morrer vezes sem conta
Para que tu e eu sobrevivêssemos ao naufrágio que estávamos a germinar
E não passei de uma cabra lamechas
E por fim fodeste com uma puta e arrependeste-te
Não mais eras digno de amar
E ela naufragou assim como eu
E a minha porta ficou aberta dias sem fim
Esperava que desses entrada
Mas tu não apareceste
Éramos só amigos dizias tu
Só amigos.

A HISTÓRIA de Brandi Carlile

“Todas as linhas que marcam a minha cara contam a história de quem eu sou. São tantas as histórias dos lugares onde estive e de como cheguei aqui. Mas estas histórias não têm qualquer significado quando não tens ninguém a quem contar. Eu subi até ao pico das montanhas, nadei por todos os oceanos azuis, passei os limites e quebrei todas as regras. Tu vês o sorriso que está na minha casa, ele esconde as palavras que não saem. E todos os meus amigos que pensam que sou abençoado... eles não sabem que a minha cabeça está uma confusão. Não, eles não sabem quem realmente sou e pelo que passei, não como tu sabes...”

HORAS ANTES

Hoje quis dizer que vos odeio, mas a verdade é que não vos odeio e por isso não faria sentido dizê-lo. Mas por momentos senti que vos odiava. O cansaço leva-me a um esgotamento mental onde os dados não estão a ser arquivados da forma mais correcta. A catalogação está errada... mas podiam pelo menos ter celebrado comigo as felicidades da vida, podiam ter mostrado o mínimo de interesse, podiam ter-me ouvido durante dez minutos. Mas os dia foram demasiado rápidos, em tudo as horas voaram. Partiram, saindo pela janela, até ao sul. Assim como os patos, as horas também partiram para o sul. Estou cansado. Dói-me o corpo, dói-me a cabeça, dói-me a alma.

Horas antes ligo-te para dizer que temos de trocar a reunião para segunda-feira. Digo-te que ando cansado ao ponto de me ter esquecido que o concerto da Madonna é na mesma hora a que marquei a reunião. Tu ententes e soltas um riso. Desligo o telemóvel e penso que tenho mesmo de comprar uma agenda.

Horas antes tinha estado com alguns amigos a rir no café e a falar dos novos projectos. Estamos todos com vontade de trazer algo novo. E mesmo com falta de dinheiro tentamos repensar como será isso possível. Mas olhamos uns para os outros e estamos confiantes. Sorrimos. O mundo não é assim tão escuro.

Horas antes estou a sair do Atelier com o meu portfolio na mão. Saio do atelier que será o meu trabalho nos próximos tempos. Estou muito contente. Entro no carro e fumo um cigarro andes de arrancar para o café. Tento recapitular tudo o que tenho para fazer para não me esquecer de nada.

Horas antes estou no lux. Recordo algumas memórias e partilho-as contigo. Não sei porque as partilho. Tu também recordas algumas das tuas memórias. Comemos uma tosta e ainda rimos um pouco. Pedem-nos um cigarro e não damos. Passámos a noite a dar cigarros e só temos mais três. Os outros ficaram na pista a dançar. Estão drogados. Nós não estamos. Falo-te do gato. Do pobre do gato que nada tem a ver comigo e eles. O gato está perdido no meio.

Horas antes sou o Andy Warhol. Tu és a Cher e ela a Bela Adormecida. Tento imaginar como é que estas três pessoas se dariam se fossem amigas. É claro que penso na Bela Adormecida depois de acordada.

Horas antes estou perdido em Lisboa. Tento chegar ao estúdio mas o GPS falha. Estou cansado e não consigo pensar. Porque é que esta merda não funciona? Encontro. Converso. As coisas ficam decididas. Marco na agenda mental que tenho de ir comprar amostras de tecidos e aviamentos. Alguns dos coordenados têm de ser corrigidos. Marcamos uma segunda reunião para domingo.

Horas antes estive a ver o espaço onde vou expor o meu trabalho. O ambiente é estranho. Fui seleccionado. Agora tenho de me desenrascar. Tira algumas fotografias e vou tendo algumas ideias. Nunca acreditei que tão cedo estaria aqui. Rio comigo mesmo.

Horas antes o gato tenta brincar comigo mas estou tão chateado que acabo por desprezá-lo. Mesmo assim ele fica sentado a olhar para mim em tom brincalhão. Atiro a bola para o outro lado da casa e espero que ele não volte. Ele não volta.

Horas antes descubro que a surpresa não era para mim. Então não era uma surpresa para mim. Era uma surpresa para vocês. Vocês apenas queriam que eu visse a vossa surpresa. Cai-me tudo. Olho para a casa, olho para eles, olho para mim...

Horas antes ligam-me e dizem que têm uma surpresa para mim. Sorrio. Pergunto o que é e não me dizem. Insisto, estou curioso. Um gato. Pego no carro e vou a voar ter com vocês.

PÉS E GATOS

Raio e coriscos. Tudo muda. Tudo é vida alternada de um outra vida. Tinha uma vida. Tinha um mundo. Tinha esperanças e sonhos. Hoje tenho outra vida. Tenho outro mundo. Outras esperanças. Mas olho para trás e vejo que os sonhos são os mesmos. E repito na minha cabeça dia após dia. Certifico-me de que ainda é neles que acredito. Os sonhos. Por vezes desconexos. Por vezes em perfeita sintonia. Liberdade. Amor. De tudo. Para tudo. Tento encontrar significados para as coisas. Abraçar sem deixar cair. Saltar para o outro lado do muro. Há revolta. Há sempre revolta. E salto planícies. Campos. Cidades. Abismos. Voo sobre os rios. Mares. Oceanos. E sinto o vento. E sinto-te. Sei que estás lá para mim. Ouço a tua voz. Ouço o teu respirar. E a brisa corre. Dissipa-se. Mas ficaste. E adormeço. Adormeço melhor por saber que não estou só. Mesmo quando estou. Olho à minha volta. Esta é a minha vida. Ponto de partida. Avançar. O sinal está verde. Mas o pé tem medo de carregar no acelerador. O pé sente aquilo que o coração sente. O pé avisa. O pé não é só um pé. E vejo-te a viver a minha vida. A minha casa. O meu amor. O cheiro das coisas que em tempos me fizeram sorrir. E deixaste-me de rastos. Cada convite teu para viver a tua vida é um convite que aperta no peito. Tu agora és eu. E eu agora sou tu. O gato. A manhosa farsa que me atacou. E se não chorei foi porque não quis. Mas sou feliz por ti. Sou feliz porque tenho a brisa que me acalma. Não somos inocentes. Os maus sentimentos também nos atravessam o espírito. Digo ao pé para avançar. Ordeno-o.

COINCIDÊNCIAS

Há dias em que acordo e o mundo simplesmente deu uma grande volta... É então que saio para a rua e reparo que o céu está azul, as pessoas andam vestidas e os carros fazem barulho. Como pode isto ter acontecido? Como deixei as coisas chegarem a isto e ter-me deixado dormir? Mas mesmo surpreso com a ideia de estar calor num dia de sol subo a rua e estranhamente encontro-o. Que surreal! Ainda ontem havia recebido uma mensagem a falar sobre ele. Digo-lhe olá, esboço um sorriso e sigo em frente contudo tenho tempo para reparar que usa o mesmo perfume que eu. Volto atrás e pergunto-lhe, Foste tu que me ligaste e não disseste nada? Do que estás a falar, responde ele. Nada, digo eu, esquece, desculpa ter-te importunado, sê feliz. Sigo pela rua fora até ao comboio a ponderar as possibilidades matemáticas da existência de coincidências. E se as coincidências são muitas deveremos duvidar delas enquanto coincidências? Existirão mesmo coincidências ou somos simplesmente nós a criar ilusões onde elas não existem, a criar vendas para os olhos para tapar as coisas mais óbvias?

Quando me sento no banco do comboio já penso no destino e nas coisas que nos estão pré-destinadas a acontecer. Mas ao ouvir o ruído do comboio tomo consciência de que supostamente estou destinado a ir até ao cais do Sodré a não ser que saia antes. Mas se o destino nos leva para onde devemos estar como terei eu livre arbítrio? E será que o destino nos leva até às coincidências, ou simplesmente nos leva a abrir os olhos e a ver a realidade e nós é que nos limitamos a dizer... ah... foi coincidência? Já no cais do Sodré apercebo-me que este tempo todo tenho andado a passar por parvo nas mãos de alguém que me faz acreditar em coincidências... (quando é tudo tão óbvio) e o mais triste é que me deixo consumir. Será o amor também uma coincidência?

Saí da estação e o céu estava verde, as pessoas nuas e os carros deslizavam silenciosamente... finalmente um pouco de realidade!

PUTAS E AFINS (Parte 2 - 4 de 4)

VAI PARA A PUTA QUE TE PARIU
IV. A MÃE
Que puta! E nem em sonhos duvidei.
As histórias dos contos de fadas já não são para uma mãe.
São para as meninas, para as virgens, para as tontinhas, para as coninhas.
Não para uma senhora a quem o ventre foi rasgado à faca a sangue frio
Numa longa manhã de Inverno. Não para mim.
Vi o meu feto ensanguentado e nojento, vi-o assim para dizer nunca mais
Ao descuido prematuro, às emboscadas inoportunas, ao meu amor por ti.
E tiveste logo que te aventurar em putices de menor grau
Como te havia ensinado a repudiar, a rejeitar, a dizer
Um simples e tão útil: Não!
Mas para ti
A rameira sou eu que depositei esperanças e vi-te partir
A rameira sou eu que chorei por ti.
A rameira sou eu que te amo.
A puta que te pariu!