UMA CASA QUE SE COMEÇA A APAGAR

A personagem não podia morrer e o escritor também não. Era preciso que continuasse a acreditar em si. Acreditar, a agora mais do que nunca, naquilo que era. Estava cansado, mas a primeira etapa da sua viagem estava prestes a terminar, mais uns dias e estaria de volta à sua terra natal. A contagem decrescente havia começado. Restavam-lhe seis dias para que se despedisse daquela paisagem, da varanda do seu apartamento. Quando voltasse era preciso encontrar outra morada, outro espaço, outra casa e naquela permaneciam tantas memórias. As paredes casca-de-ovo tinham tanto para contar e ali permaneciam, em silêncio, a olhar para a sua figura em frente ao computador, a tentar comunicar com o outro lado do oceano, esse que fazia toda a diferença.

Nas colunas acompanhava-o Regina Spektor com o seu piano e a sua genialidade. Era nela que se sentia vivo. Era ela quem cantava a sua vida, as suas histórias, as suas memórias. E ele acompanhava-a com a sua voz trémula, cansada, tabagista, rouca... esperando pelo tempo que o levaria de volta à sua ex-realidade, à sua ex-vida, à sua ex-morada. Olhou à sua volta e havia tanto para empacotar, para guardar, para levar, para limpar, para deixar tal como foi visto no primeiro dia. Era essa a crueldade... apagar qualquer vestígio da sua passagem por ali e recomeçar tudo noutro lado. A casa podia ficar vazia de si, mas poderia ele apagar de si aquela casa?

ON MY OWN por LEA SALONGA

"And now I'm all alone again nowhere to turn, no one to go to. Without a home, without a friend, without a face to say hello to. But now the night is near and I can make-believe he's here. Sometimes I walk alone at night when everybody else is sleeping. I think of him and then I'm happy with the company I'm keeping. The city goes to bed and I can live inside my head. On my own pretending he's beside me. All alone I walk with him 'til morning. Without him, I feel his arms around me and when I lose my way, I close my eyes and he has found me. In the rain the pavement shines like silver. All the lights are misty in the river. In the darkness, the trees are full of starlight and all I see is him and me forever and forever. And I know it's only in my mind that I'm talking to myself and not to him. And although I know that he is blind, still I say there's a way for us. I love him but when the night is over, he is gone. The river's just a river. Without him, the world around me changes. The trees are bare and everywhere the streets are full of strangers. I love him but every day I'm learning. All my life I've only been pretending. Without me, his world will go on turning, a world that's full of happiness that I have never known. I love him, I love him, I love him... But only on my own..."

From: Les Miserables

BRUNA

Verteu mais uma lágrima por mais uma despedida, mais uma vez o aeroporto, mais uma vez as pessoas estranhas à sua volta, rodopio de emoções, vidas que se cruzam, descruzam, para quem sabe, um dia, voltarem a cruzar. Não era um adeus. Era um até mais. Mas tudo pelo qual tinham vivido era mais forte do que a retenção das lágrimas. A viagem ao Brasil mudou as suas vidas e, juntos, assistiram a essas transformações, juntos conversaram, juntos viveram, lado a lado, porta com porta. E agora a sua porta estava aberta. Era visível o colchão frio, despido sob a base da cama, as paredes nuas, um silêncio trazido pela aragem da janela que foi deixada, também ela, aberta. E continuou a dirigir-se ao quarto dela para vestir-se, era lá que tinha as roupas, no armário que estava metade vazio expondo toda a brancura dos contraplacados. E alguns cabides permaneciam no varão, solitários, balançando com as pequenas brisas que entravam.

O mundo, onde estava a aprender a viver, desaparecia aos poucos. Ainda se lembrava do primeiro dia em que a viu como se estivesse a acontecer naquele momento. O tempo tinha voado e tanto que viverem, o mesmo tanto que nunca mais iria esquecer, as horas bem passadas, as conversas na varanda, os desabafos das tristezas, o contar das alegrias, explodirem de vida, a partilha de uma casa, das viagens, das emoções. E quem iria esperar que aquela pequena moça era tão parecida consigo? Aquela que ele viu chegar numa tarde, onde o sol já se punha, junto à praia, quando os rostos ainda se estranhavam, onde tomaram a decisão de partilhar uma casa. Todos esses momentos ficaram guardados na sua memória. Restava-lhe a ele continuar.

EMPTY CHAIRS AT EMPTY TABLES por MICHAEL BALL

Deitou-se para dormir um pouco. Andava a dormir pouco ou nada. Mas a sesta foi atribulada, recheada de pesadelos e, quando acordou, tocava uma música nas coluna...

"There's a grief that can't be spoken. There's a pain goes on and on. Empty chairs at empty tables, now my friends are dead and gone. Here they talked of revolution, here it was they lit the flame, here they sang about tomorrow and tomorrow never came. From the table in the corner they could see a world reborn and they rose with voices ringing. I can hear them now! The very words that they had sung became their last communion on the lowly barricade.. at dawn. Oh my friends, my friends forgive me that I live and you are gone. There's a grief that can't be spoken. There's a pain goes on and on. Phantom faces at the window. Phantom shadows on the floor. Empty chairs at empty tables where my friends will meet no more. Oh my friends, my friends, don't ask me what your sacrifice was for. Empty chairs at empty tables where my friends will sing no more..."

From: Les Miserables

O LIMITE DO TEMPO

O ano novo tinha começado e só lhe restava ficar entregue aos bichos. Não tardaria muito até que regressasse a Lisboa, ao seu mundo, à sua vida. Mas o que seria agora o seu mundo? Tantas coisas aconteceram. Tudo estava diferente, mudado, triste, vazio. O que iria sentir quando abrisse de novo a porta de sua casa? A chave rodaria lentamente duas vezes na fechadura e no seu interior o silêncio esperava por si.

Questionou-se em relação às suas capacidades de aceitar esse facto. Não estava preparado para encarar essa realidade, muito menos sabendo que seria por tempo limitado, que de novo estaria de volta ao Brasil. E aí seria mais uma batalha, de novo a procura de casa, de estabilidade, de uma vida que, mais uma vez, teria o seu tempo contado.

Não tinha como fugir a esta segmentação do tempo. Era assim que a vida se fazia. Fazia-se por segundos, minutos, horas, dias, semanas, anos, décadas... viagens para aqui, para ali e tudo dentro do seu tempo, das suas limitações, da sua passagem. E cada segundo que passava parecia-lhe mentira. O tempo tinha-se esgotado.