A CASA (divagações nocturnas)

São quatro da manhã e não consigo dormir. Só consigo pensar na decoração da minha casa em Lisboa. Preciso do kitsch. Apimentar a minha visão com pequenos detalhes. Mais cor e mais diversidade. Estive a ver umas fotos na internet que me aliciaram à mudança. Estes processos inconscientes da mente são extraordinários. Do nada surgem pensamentos sem uma ponta visível para que os possamos puxar e perceber de onde vêm. Talvez o facto de ter comprado uma mesa laranja e rosa para colocar o computador tenha ajudado. Talvez esteja na altura de me livrar daquele biombo velho. Em mente fica a ideia de pintar as paredes, ou pintar mais paredes, pintar as portas também é uma boa ideia. Os móveis deixam-me reticente, mas nada que esteja fora de questão. Preciso definitivamente de tapetes. Relembro a minha casa e sinto que faz parte dos catálogos de uma revista (do IKEA). Preciso que pareça que faz parte do catalogo de uma vida vivida. Estou farto da beleza estética, quero o conforto emocional. Mas até isto tudo acontecer falta o mais importante... regressar.

NO OUTRO LADO

Enquanto descia a rua, de sacos de mercantil na mão, calças jeans com mais de sete anos e uma blusa amarrotada... sorriu ao de leve. Já estava tão habituado à rotina que aquele lugar já era a sua casa. Voltara a morar no mesmo prédio de antigamente, só ligeiramente mais abaixo, no 1703. Fazia parte da sua rotina levantar-se cedo, a muito custo, frequentar a universidade, trabalhar arduamente quando chegava a casa, tirar um tempo para sapatear e tomar uns cafés de fim de tarde com os amigos. E tudo já estava no esquema da sua cabeça. Esta era a sua vida no outro lado do oceano. O apartamento era ligeiramente maior, mais arejado, mais confortável e os dias passavam a voar. Ainda nem tivera tempo de assentar e já começava a imaginar o dia em que teria de deixar tudo aquilo para trás e retomar a sua vida na sua casa lisboeta. Eram duas realidades opostas, eram duas formas diferentes de viver. Não era uma questão de decisão, ele sabia que a sua estadia no outro lado do oceano era temporária e assim devia ser. Cada coisa tem o seu lugar para acontecer. Não se deve estender aquilo que tem o seu tempo determinado para acontecer. Deve-se viver, aproveitar e partir. Mas dizer adeus não é, de todo, uma coisa fácil... dói no coração, na alma, no corpo...

O GRITO SILENCIOSO

Descrição de situação: As paredes casca de ovo já lhe eram habituais, apenas a configuração da casa havia mudado. Pela janela entrava um vento ligeiro e agradável que cortava o calor que se sentia no ar. O quarto era maior, mas a grande cama ocupava a maior parte do espaço. Numa mesa improvisada estava o computador apoiado o armário ficava logo atrás. Na cabeceira da cama um homem caveira e na parede uma estrela de madeira e tecido laranja. Raras eram as vezes que acendia a luz, chegava-lhe a iluminação da rua para sobreviver. Da janela uma longa rua a perder de vista no ponto de fuga, iluminada por pequenos pontos amarelados. O barulho era o do costume, alguma banda sonora saia do seu computador e misturava-se com o barulho dos carros. Era uma mistura a que se havia habituado. Ali nunca parava o silêncio, nem nas mais profundas horas da noite.

Discrição de acção: Deitado na larga cama que ocupava o quarto quase todo agarrou-se às almofadas e ao lençol azul com bordados de cornucópias e chorou. A noite e os barulhos entravam pela janela para acompanharem as suas lágrimas. Estava cansado de batalhar consigo mesmo. Estava dorido internamente. Só queria sentir no seu corpo o correr de algum calor. De alguma coisa que lhe desse alento. Naquele momento esqueceu tudo o que o rodeava e lhe fazia feliz. Esqueceu tudo isso pois só conseguiu deixar-se ali a torturar a cabeça com pensamentos do passado. Queria gritar, essa era uma constante dos seus dias, gritar, mas nem um som lhe saia das goelas. Nada.

ACORDAR

Era bom estar de volta. Pisar de novo aquelas ruas, voltar a sentir aqueles cheiros, aquele sol que lhe banhava a face e os braços agora desnudos. Sentir que não estava perdido, que reconhecia os lugares, as avenidas, as pessoas...

Na rede deixou-se cair em pensamentos. Era inevitável. Tinha chegado há três dias mas nunca poderia esquecer o passado. Toda essa vida que o atormentava e não deixava a sua cabeça descançada. O que fumenta o presente é o passado. É ele que lhe dá vida. É como um livro que só se escreve mediante a existência de um escritor. Sem ele nada faz sentido. O problema está em conseguir viver o presente quando a cabeça não sai do passado. Tantas coisas que ficaram por fazer, por dizer, por explicar, concluir, começar, recomeçar. Ele sentia o mundo a girar não fazendo parte dele. Estava ausente do curso natural do tempo e da vida.

- Acorda! - dizia-lhe uma voz ao ouvido.
- Estou acordado - respondeu irritado.

Não era uma pessoa fácil ao acordar. Mas sabia que a voz não se referia a um acordar físico, mas sim a um acordar mental. Olhou à sua volta, à volta da sua alma e tentou decifrar os pequenos sentimentos que por ali pairavam como pequenos bichos voadores. Os sons que emitiam começaram a tornar-se ensurdecedores. Não se conseguia concentrar. Acorda!, pensou para si mesmo. E os seus olhos abriram-se e os sons à sua volta pararam. Tudo ficou em camara lenta. Deu por si a admirar cada bichinho voador, um por um. Estava na altura de se examinar. Só assim saberia não estagnar.

Existem certos momentos na vida em que precisamos de fazer uma pausa, avaliar tudo o que fizémos, para poder avançar. Quando perdemos muito tempo no passado sem fazer a pausa efectiva corremos o risco de ali ficarmos presos.

DOMINÓ

Nunca sentira o seu peito incendiar-se daquele modo. Uma ânsia que aos poucos se alastrava e retirava do corpo a essência que o fazia respirar. Os olhos sentiram-se cansados e só não adormeceu pela incapacidade do seu corpo de responder a tais desejos, pois isso seria estar a dar a si algum prazer. Não estava em si privar-se do prazer que isso seria coisa ridículo de fazer, estava no seu corpo em rejeitar esse prazer por uma opção que ele não compreendia. Talvez um aviso das suas células a alguma situação que ele não estava a prestar atenção. E deixou-se estar com a face colada na janela a ver as nuvens e o céu. Essa imagem acalmava-o.

As suas crenças tinham sido derrubadas como peças de dominó. Uma por uma até estarem todas completamente atafulhadas umas nas outras, sem ordem ou lógica. Durante um tempo não mexeu nelas, simplesmente as olhou, percebeu como tinham chegado àquele estado. Tirou as suas conclusões, aprendeu as suas lições e chegara o momento de as recolocar, reordenar, redistribuir e entender qual a nova construção que lhes iria dar. Queria uma construção simples, sem labirintos, refúgios, cantos escuros, portas fechadas ou peças fantasmas. Queria poder ver-se de todos os lados em espelhos que mostrassem todos os ângulos sem artifícios, manhas e mágicas assumindo os defeitos, as marcas, as dores. O dominó havia sido derrubado e era tempo de o ajuntar.