O ÚLTIMO DIA

Preparo a casa para a grande noite. Como se esta não fosse apenas mais uma noite. Devia começar a celebrar as passagens dos meses, das semanas ou mesmo dos dias. Mas é agora ou nunca, a contagem já começou... e que ano. Como conseguem caber tantas coisas num espaço tão pequeno? Afinal o que é um ano numa vida, o que é uma vida no meio de tantas outras, o que somos todos nós no meio do universo? Uma migalha! Mas uma migalha que nos dá tantas dores de cabeça.

Deixei de acreditar em Deus mas ainda ontem à noite lhe pedi que curasse a minha gata. Não sei porque o fiz, as palavras saíram-me da boca, como uma necessidade compulsiva de que exista algo maior que nos dê uma mãozinha quando precisamos. Não, não voltei a acreditar em Deus. Quero sim acreditar nas pessoas. E espero que quem tenha receitado os comprimidos tenha feito a escolha certa.

Antigamente agradecia-se a Deus à hora do jantar por mais um dia que tinha passado, por podermos ter mais uma refeição à mesa e por continuarmos todos juntos. O acto em si era bonito, mas havia qualquer coisa de errado nas palavras. Desvalorizava-se o esforço de todos nós para que viver fosse possível. A partir de hoje vou agradecer todos os dias às pessoas que me rodeiam, por sorrirem para mim, por chorarem no meu ombro, por eu chorar no deles, por se preocuparem comigo, pelo amor que me dão, por se esforçarem todos os dias por serem melhores pessoas, por darem tudo para que viver seja um momento feliz.

A todos os que me acompanharam na jornada que foi este ano um muito obrigado. Todos juntos fazemos a diferença. Todos juntos somos melhores, somos especiais, somos uns dos outros.

P.S.: Desculpa lá Deus qualquer coisinha! Mas ficas convidado a juntar-te a nós. Onde comem dez come mais um. Ah... e não te esqueças da gata!

ADEUS, ATÉ AMANHÃ

Vou-me embora, disseste tu, querendo saber... não quero mais saber de ti. Mas a verdade é que nunca foste embora, continuas a bater-me à porta de tempos a tempos. Entras e sais deixando vestígios de que aqui estiveste. Esses vestígios encostam-me a ti, encostam-me a uma esperança... eu que nunca quis ver-te partir. Se é para te despires, despe-te e faz amor comigo. De outro modo diz-me adeus de uma vez por todas. Todos sofremos, todos choramos, mas também rimos e queremos ser felizes. Por isso ama-me ou odeia-me.

Liguei à Elisa para me ajudar a empacotar as minhas coisas e fui até à Baixa fechar as contas do banco. Não se trata de arranjar mais um psicólogo, não se trata de mais um compromisso. Não és o único que está ferido e não sei mais que raio hei-de fazer. Acho que nunca viste até onde a minha fenda abriu, nunca soubeste que fiquei sem corda para puxar e eu não te podia salvar... Foi o que sempre quiseste, mas eu não te podia salvar não importa o que tentasse. Tudo o que pude fazer foi amar-te e deixar-te ir. Não importa o que tentasse, tudo o que pude fazer foi amar-te, meu deus, amei-te tanto. Podemos discutir ou podemos esperar ou podemos partir...

PALAVRAS DE CIGARRO FUMADO

“...estarei eternamente à procura de o reconhecer num outro corpo e numa outra cara...”
- Não tenhas pena de mim, estou só cansado – disse-lhe.
“...olho para trás e parece que se passaram bem mais do que 23 anos...”
O cinzeiro brota palavras de um cigarro fumado, estou ausente.
“Como muitos gostam de referir nasci com os pés virados para a lua.”
Tenho o telemóvel cheio de inutilidades e a luz da cozinha treme.
É preciso mudar a lâmpada mas nunca tive jeito para essas coisas.
“Os tempos nem sempre foram os melhores mas soubemos dar a volta a isso.”
Não te aproximes de mim com voracidade, simplesmente aproxima-te.
São sempre as incertezas. É sempre a novidade.
“...a verdade é que a pessoa que eu amo não está comigo para experienciar tudo isto.”
Agora é só o fumo de uma beata mal apagada.

UM ANJO E UM DEMÓNIO NO OMBRO

Toda a minha vida tenho vindo a dizer que sou má pessoa. Que coisa mais ridícula de se dizer! Mas não sou ingénuo ao ponto de afirmar que nunca magoei ninguém. Pois magoei e arrependo-me. Mas nos últimos dois anos tenho vindo a tentar mudar essa imagem que tenho de mim mesmo. E é horrível quando temos tais pensamentos sobre a nossa pessoa. Não me caía muito bem dizer-me má pessoa. Comecei então a tomar mais consciência das minhas atitudes, da forma como tratava as pessoas e de como vivia o meu dia-a-dia. Essa tomada de consciência levou-me a muitas questões, mas a principal de todas... terei eu sido, efectivamente, uma má pessoa?

Sempre fui uma pessoa forte e independente, trabalhadora e com os meus objectivos a alcançar. Para tudo isso nunca passei a perna a ninguém. Sempre me fiz valer pelo que era e nunca pelo que os outros não eram. Nunca sabotei ninguém para ser melhor. Sempre joguei um jogo integro.

No que toca às palavras sempre fui uma pessoa muito transparente. Mas essa transparência nem sempre foi bem aceite e durante uns anos, após várias criticas, tentei ser mais politicamente correcto. Aconteceu que por vezes senti-me a viver pequenas mentiras por não dizer aquilo que me ia na alma. Mas já estava no jogo social e hoje, por vezes, quero dizer o que penso e sinto-me travado pela história do “não precisas de dizer isso que não vai fazer bem à outra pessoa”. E sinto cá dentro uma raiva de mim mesmo. E por tantas coisas que não disse acabei por me tornar a pessoa “boazinha”. Acontece que isso fez com que desse abertura às outras pessoas de serem as “mazinhas”. Mas como sempre fui forte para aguentar muita coisa deixei-me ir e ouvi de tudo nos últimos tempos.

E foi aqui que me pus a pensar... as outras pessoas agora são eu. As outras pessoas, tendo oportunidade, estão a ser exactamente aquilo que eu era. Seremos então no fundo todas más pessoas à espera de uma oportunidade? Ou estaremos todos travados nas línguas de dizermos o que pensamos para não magoar até encontrar alguém forte que aguente a verdade?

Eu considero-me uma pessoa forte que aguenta essas verdades e sendo que agora até me mantenho socialmente correcto sou o alvo ideal para fazerem de mim gato sapato. Mas a verdade é que basta! Porque por mais forte que uma pessoa seja não pode deixar que lhe digam coisas e ficar a pensar: «pronto, esta pessoa precisava de dizer isto para se sentir bem e eu até me aguento». Dar esta abertura aos outros é o fim da parada. E quando dei por mim as coisas estavam a tomar um rumo muito estranho... Basta!