O LIMITE DO TEMPO

O ano novo tinha começado e só lhe restava ficar entregue aos bichos. Não tardaria muito até que regressasse a Lisboa, ao seu mundo, à sua vida. Mas o que seria agora o seu mundo? Tantas coisas aconteceram. Tudo estava diferente, mudado, triste, vazio. O que iria sentir quando abrisse de novo a porta de sua casa? A chave rodaria lentamente duas vezes na fechadura e no seu interior o silêncio esperava por si.

Questionou-se em relação às suas capacidades de aceitar esse facto. Não estava preparado para encarar essa realidade, muito menos sabendo que seria por tempo limitado, que de novo estaria de volta ao Brasil. E aí seria mais uma batalha, de novo a procura de casa, de estabilidade, de uma vida que, mais uma vez, teria o seu tempo contado.

Não tinha como fugir a esta segmentação do tempo. Era assim que a vida se fazia. Fazia-se por segundos, minutos, horas, dias, semanas, anos, décadas... viagens para aqui, para ali e tudo dentro do seu tempo, das suas limitações, da sua passagem. E cada segundo que passava parecia-lhe mentira. O tempo tinha-se esgotado.

III. VIVER DO AMOR

Como teria sido se estivesse perto? A mesma monotonia, a mesma melancolia, a mesma apatia. As horas que passavam por passar. Os dias que seguiam por ser esse o seu destino. E nunca esteve tão certo para afirmar ter tomado a decisão correcta. Estava longe, mudou de lugar, mudou-se a si mesmo. Era esse o grande mote da sua vida. Mudar. Era como um camaleão. Talvez tudo isso se devesse à sua profissão em constante mutação, criação, transformação. Metamorfoses que galopavam umas atrás das outras. Não estava apto para se definir no ontem, no hoje, no amanhã. E este era ele!

Mas a grande contradição da sua vida estava no seu olhar. A luta entre o que desejava ver e o que via, o que desejava sentir e o que sentia, o que desejava viver e o que viva. E só os seus olhos se apercebiam de tudo isso. Só eles tinham a real percepção do mundo que o rodeava. Desejava ser capaz de sentir o mundo de outra forma, da forma que apregoava, mas acabava sempre por lhe dar um tom lírico. Não conseguia subverter os seus próprios padrões.

Chamaram-lhe romântico! Mas romântico como?, pensou. Se ele não sentia o amor como era suposto sentir, como poderiam chamar-lhe tal coisa se o romantismo vinha carregado de regras e conceitos pré-definidos? Tentou perceber tal calamidade. E a única referencia pela qual conseguiu fazer alguma relação foi na pintura romântica. A explosão de cor, sentimentos e fantasias. O sentir pela ponta do pincel a ira, a dor, a loucura, a paixão, a vibração da alma, a alegria, a tristeza, sentir pelo puro prazer de sentir. Sentir sem culpa. Esta seria a maior aproximação que encontrava com o romantismo. Mas seria em todas estas coisas que pensavam quando o chamavam romântico?

E mais um ano estava a terminar. A contagem decrescente havia começado. 10... Era preciso organizar todas as ideias 9... Tentar compreender o que se estava a passar consigo 8... Definir sentimentos 7... Passar a acreditar no “amor”? 6... Não! 5... Acreditar em si 4... Viver sempre mais 3... Ser feliz 2... oh meu deus... é agora 1... Feliz Ano Novo!

“P’ra se viver do amor. Há que esquecer o amor. Há que se amar, sem amar, sem prazer. E com despertador - como um funcionário. Há que penar no amor, p’ra se ganhar no amor. Há que apanhar e sangrar e suar como um trabalhador. Ai, o amor jamais foi um sonho. O amor, eu bem sei, Já provei e é um veneno medonho. É por isso que se há de entender que o amor não é um ócio. E compreender que o amor não é um vício. O amor é sacrifício. O amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor - como um missionário”

From: Chico Buarque - A Ópera do Malandro

II. AMOR CORRECTO

Segue então a sua caminhada para a descoberta do que era o amor de que todos falavam. E a verdade é que ninguém o deixou experienciar o amor por forma a que ele lhe atribuísse essa palavra. O amor já estava repleto de significados, signos e significantes. Já era um sentimento formado. Algo que teria de se obrigar a sentir. E percorria os olhos em leituras ávidas, leituras cautelosamente estudadas, sugando toda e qualquer infirmação que lhe permitisse entender o que teria de sentir.

O problema foi quando se apercebeu que não conseguia expressar-se segundo aqueles modos românticos, poéticos, idílicos, “patéticos”. Sabia sentir os outros de uma forma fugaz, alterada, engelhada, capaz de fazê-lo chorar noites e dias, cometer loucuras e destruir-se aos pedaços pelos cantos da casa. Mas não se sentia apto para corresponder às regras e planos estipulados. E começou a achar patético o “amor”, assistir ao sofrimento dos outros pela não concretização da história do príncipe e da princesa. Por não os arrancarem do sono com um beijo carregado de um testamento de ...e viveram felizes para sempre... e, em todos os lugares, o repugnante sentimentalismo das lágrimas nauseantemente mal amadas.

E quando estava com alguém sentia a necessidade de pedir desculpas por não corresponder ao pretendido, por não conseguir ser aquilo que todos esperavam que ele fosse. Aquilo que todos esperam que todos sejam. E muitas vezes sentia-se culpado por não conseguir amar “correctamente”. Amava à sua maneira. Amava porque sentia. Amava porque estava vivo. Amava porque encontrou o seu significado para essa palavra. Porque sentiu algo a que resolveu apelidar de amor.

I. A LÍNGUA

Aborreciam-lhe os dogmas do amor, a esquadria perfeita a ser alcançada, as regras que se haviam infiltrado nas cabeças de todos. As histórias contadas quando ainda nem sabia o que eram palavras. E na cama tudo acabava com um final feliz, longe de imperfeições, longe da realidade. E todos os que o rodeavam aprenderam a amar segundo as regras dos grandes clássicos, dos filmes românticos, das músicas de amor. E os mandamentos foram escritos. As regras foram ditadas. Longe ficaram todas as possibilidades de uma experiência que fugisse aos regulamentos. Toda e qualquer outra forma de dizer amo-te sem o dizer. Os gestos estavam estudados, as palavras ensaiadas, era só esperar pelo momento certo para o fazer , dizer e ser feliz.

E a sua cabeça ainda infantil, adolescente, criava encenações perfeitas para o grande momento. Beijava o antebraço para que ninguém soubesse tratar-se do primeiro beijo. Actuava com as paredes para não se engasgar. Olhava-se ao espelho para tomar consciência da sua figura patética, desleixada, gorda. Nunca iria conseguir encarar tal momento. Se é que tal momento fosse algum dia acontecer.

E numa manhã chuvosa, apercebeu-se que o momento estava a chegar. Era agora! Nada podia falhar! O papel estava decorado, os passos milimetricamente ensaiados, a perca da vergonha em relação ao seu corpo... mas onde estava o romantismo, a luz das velas, os violinos? A casa estava silenciosa, a luz estava mais intensa do que nunca, a sua barriga tremia por todos os lados, nada acontecera como planeado... e uma língua entrou na sua boca! (O seu antebraço não tinha língua!)

NATAL NATAL

Os meses passavam e as formiguinhas continuavam atarefadas de um lado para o outro. Lá fora, o sol continuava abrasador apesar de já ser Natal. E onde estava o frio, os aquecedores, as lareiras, as árvores de natal, a neve, os enfeites, o espírito, a família? Tudo tinha ficado do outro lado do oceano. Ele mal sentia que era Natal. O dia aproximava-se e tudo continuava normal. As pessoas andavam à mesma cadência na rua, o transito continuava normal, as praias sempre cheias de gente, e nada de avistar o senhor barbudo. Podia até dizer que sentia falta da forma excessiva como se vivia o Natal na sua terra. Pelo menos vivia-se.

Sentia falta de ouvir as músicas de Natal. Da algazarra nas ruas. Da chuva. Do frio. Das avenidas enfeitadas. Das luzes. Da cor. Da magia natalícia. E só conseguiu dar valor ao Natal quando se perdeu dele.

UM FELIZ NATAL A TODOS