HÁ DECISÕES QUE PODEM ARRUINAR TODA UMA VIDA

Há um ano atrás uma cigana disse-lhe que haviam decisões que lhe iriam arruinar toda uma vida. Se ele lhe tivesse dado ouvidos...

ERA A MÃE DELE

Encontrei-te na faculdade. Falámos do coração, de algumas banalidades e da morte da mãe dele. E mais tarde comecei a lembrar-me de me ter cruzado com ele por aí e não ter notado diferença alguma no seu comportamento. Será que ele está a reagir bem ou simplesmente não está a reagir? Eu nem consigo pensar na ideia de a minha mãe morrer – bato três vezes na madeira. Eu sei que os tempos modernos estão cada vez mais acelerados, mais centrados num seguir em frente, mas era a mãe dele! Estará a morte a tornar-se numa coisa tão impessoal? Eu sei que ficaste chocada com toda essa história que soubeste apenas uma semana depois porque nem reparaste que algo de mal se passava. Acho que estamos todos é a ficar doidos. Talvez andem a injectar algum produto químico no mundo que nos anda a alterar as cabeças. Será que as pessoas estão cada vez mais a deixar de pensar nas coisas, a deixar de dar importância às coisas. Ou talvez sejamos nós que pensamos demasiado nas coisas. Eu penso demasiado nas coisas e sei que tu também. Talvez o problema seja mesmo nosso... um compendio emocional cheio de racionalidade embutida. Eu sei que fizemos muitos erros no passado mas é com eles que temos aprendido... mas alguns são difíceis de esquecer e até mesmo de nos perdoarmos a nós mesmos. Talvez ele um dia ele se dê ao luxo de exprimir aquilo que sente, pois não é possível não sentir... o difícil é expressar. Eu sempre te disse que não era bom fechares-te a sete chaves, que não era bom sofreres sozinha, mas sou eu quem continua a cair no mesmo erro. Apontar o dedo? Se eu pequei como atirarei a primeira pedra? Mas porra... era a mãe dele!

A DESPEDIDA É UMA TÃO DOCE TRISTEZA

Não sabia que o vento já cruzava para esses lados. Talvez tenha-se encantado pela beleza das aves; talvez pela beleza das ondas; talvez pela simplicidade dos raios de luz. Inventou um mundo e nele foi vivendo cuidando que todos viviam nele. Mas estava a enganar-se a si mesmo. No seu mundo vivia apenas ele, no mundo dos outros viviam apenas os outros, e no mundo dele vivia apenas ele. E depois existia aquele mundo paralelo onde todos viviam juntos. Onde todos julgamos olhar para as mesmas coisas, mas a percepção que cada um tem de cada coisa é única, distinta e pessoal. Cada um vê o que quer ver, retira as informações que quer retirar e chega às conclusões que bem entender. E, afinal, é essa a beleza que faz o mundo girar – as contradições dos olhares, a relação especial que cada um tem pelas coisas. A cacofonia dos sons, os alertas inesperados, os acontecimentos casuais, os ordinários, os extraordinários. Talvez um dia cruzem-se no meio da rua e seja como a primeira vez, talvez nunca mais se encontrem. Talvez o oceano o engula e ele vire um peixe das profundezas. Talvez as aves migrem com o vento que mudou.

Depois existem as mudanças. Todos mudam e eles mudaram. O curso fez com que assim fosse. Era inevitável. Mesmo que não quisessem isso iria acontecer naturalmente. Eles já não são os mesmos, são mais do que os mesmos, são actualizações desses mesmos... e como iriam lidar com isso? Como seria lidar com aquilo que antes não estava lá e agora já faz parte? Mas não, eles não estavam perdidos, sabiam muito bem como se encontrarem. A música que ouviam ainda era a mesma. E as notas ainda saíam dos mesmos lugares. Mas a forma como as ouviam já não eram as mesmas. E cada um foi pintando a vida com outras cores. Será que as cores ainda iriam combinar? Talvez... com um pouco de imaginação. Aliás, como para tudo na vida é preciso um pouco de imaginação.

Naquele lado o brilho da vida era diferente. Habituara-se demasiado àquilo... não ia ser fácil, mas não tinha outro remédio. A despedida é uma tão doce tristeza. E a brisa que corria era tão agradável com todos os cheiros que ela trazia, ia sentir saudades de ser um habitante das terras da luz. Mas sabia que de uma maneira ou outra iria sobreviver. Afinal levava o sol dentro de si e um sorriso no rosto.

* A todos os brasileiros que encheram o meu coração de luz

I'M DANCING AND SINGING IN THE RAIN

Caminhou até à paragem do autocarro. Já eram horas das crianças estarem na cama mas ele ainda andava pelas ruas. Imaginou os pais a deitarem os seus filhos – e ele que não podia ter filhos; mas mesmo assim continuou a andar com um sorriso na cara. Sem se aperceber começou a assobiar e logo de seguida começou a sapatear pela rua fora. Só faltava mesmo a chuva. As pessoas que passavam por si deviam achar que estava louco, mas ele não se importava. O que lhe importava era o facto de não estar a chover e de não existirem candeeiros antigos. E lá ia ele, rua fora até à paragem dançando e cantando sem se preocupar com o mundo à sua volta – na verdade era assim mesmo que ele via o mundo: as pessoas a dançar e a cantar. Chegou à paragem e ainda ficou a bater os pés, mas agora em movimentos mais pequenos.

Durante a viagem imaginou que toda a gente o acompanhava, que toda a gente cantava com grandes sorrisos nos rostos e com grande alegria na alma. Mas na verdade ia tudo quieto, a pensar nas coisas da vida, um rapaz mais à frente ia lendo um livro de poesia, uma senhora ouvia música e um rapazinho ia muito concentrado nos ritmos que fazia com as mãos. Quando se aproximou da paragem ao pé da sua casa levantou-se e puxou o cordel. Caminhou até à porta, inspirou e soltou com um grande sorriso para o motorista – Tenha uma boa noite – e quando desceu as escadas já ia novamente a dançar e a cantar:

- I'm singing in the rain. Just singing in the rain. What a glorious feeling I'm happy again. I'm laughing at clouds so dark up above. The sun's in my heart and I'm ready for love. Let the stormy clouds chase. Everyone from the place come on with the rain. I've a smile on my face. I'll walk down the lane with a happy refrain. Singing, singing in the rain.

Aquela música sempre lhe trouxe boas recordações, ou pelo menos havia construído boas memorias com ela. Mas sem dúvida que aquela música pertencia à Avenida dos Combatentes... com os candeeiros amarelos, os velhos a passear os cães, uma casa colorida, uma amiga e um amor... Estava na porta do seu prédio. Olhou para a rua, mas estava deserta e os candeeiros não eram os mesmo. Suspirou e murmurou baixinho – I’m dancing and singing in the rain – e um ligeiro sorriso abriu no seu rosto.

PRIMEIRO ENCONTRO

Foi há uns anos atrás. Buscávamos alguma coisa? Acho que não. Nós nem gostámos muito um do outro. Ou será que gostamos e não queremos admitir? Não, não gostamos! Tu tinhas ar de pedante e eu de snob. A tua altivez tirava-me do sério. Era de noite e eu tinha acabado de chorar minutos antes, tinha os olhos vermelhos e uma expressão carregada. Caminhaste mais à frente que todos os outros e eu fiquei a admirar a tua figura. Mas nessa noite não era eu que estava apaixonado por ti, era o meu amigo. Ele é que queria que fosses dele. Mas tu não o querias, como nunca quiseste. E isso para ele foi uma facada no peito – mas na semana seguinte já não era por ti que ele estava apaixonado, e na outra semana já era outro e outro. Ele buscava viver o grande amor que todos procuram e nós nem estávamos aí. Nós só queríamos saber de viver mais um dia, de nos divertirmos com as pessoas que nos rodeiam. Tudo o que não queríamos era um relacionamento. Queríamos paz. Cada qual trazia consigo as mágoas do passado e estávamos em período de luto. Irritou-me o facto de não me teres dado atenção e por isso, quando chegámos ao café, sentei-me do teu lado. Tinha de fazer com que reparasses em mim nem que fosse para elevares o meu ego. Mas acho que tiveste a mesma ideia e também te quiseste sentar ao meu lado. Ali estávamos, duas crianças a disputarem a atenção. Nessa altura eu tinha deixado de fumar mas usava uma pulseira da Marlboro que o meu irmão tinha-me dado e foi a partir daí que a conversa começou. Ainda levaste na cabeça por fumares... o que foi ridículo porque mais tarde eu voltara a ser uma chaminé de novo. Eu estava cheio de teorias, ideias e ideias todos trocados e desorganizados, os quais defendia cegamente a pés juntos. Afinal eu era uma criança parva e snob. O meu amigo bem que tentava entrar na conversa mas a nossa conversa não era uma conversa, era uma disputa. Mas essa forma de sermos um com o outro foi o que nos destacou do resto das pessoas. E ao longo dessa noite o sentimento de ódio e desprezo transformava-se em carinho. As pessoas à nossa volta começavam a ser uma mancha esbatida, fosca, embaçada. Não sei se era de sermos muitos à volta de uma mesa pequena mas as nossas pernas insistiam em não se largarem. Ali estavam, colada, passando energia de um corpo para o outro. E quando descemos a rua já não caminhamos afastados mas lado a lado...